Quando Guillermo del Toro anunciou que finalmente realizaria seu sonho de décadas de adaptar Frankenstein, a expectativa ficou nas alturas. Afinal, estamos falando do diretor que nos deu obras-primas visuais como “A Forma da Água” e “O Labirinto do Fauno”. Agora que o filme está disponível na Netflix desde 7 de novembro, a pergunta que não quer calar é: será que o resultado justifica a espera?
A resposta é um retumbante “sim”, mas com algumas ressalvas importantes que você precisa conhecer antes de apertar o play para assistir.
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O que funciona (e funciona MUITO bem)
Vamos começar pelo óbvio: visualmente, este é um dos filmes mais deslumbrantes de 2025. Del Toro constrói um universo gótico rico em detalhes, onde cada frame parece uma pintura vitoriana ganhando vida. A direção de arte é impecável, com cenários construídos artesanalmente (o diretor fez questão de evitar CGI excessivo), e a fotografia captura perfeitamente aquela atmosfera melancólica e assustadora que o material original exige.
Mas o verdadeiro coração pulsante deste Frankenstein é Jacob Elordi como a Criatura. E que performance! O ator, conhecido por papéis em “Saltburn” e “Priscilla”, entrega uma interpretação que é ao mesmo tempo brutal e devastadoramente vulnerável. Diferente das versões anteriores que transformaram o monstro em um ser primitivo, aqui temos uma criatura eloquente, filosófica e profundamente humana em sua dor.
Elordi estudou dança butoh japonesa e canto gutural mongol para criar os maneirismos do personagem, e isso transparece em cada cena. Quando ele narra sua própria jornada na segunda metade do filme, você esquece completamente que está assistindo a um “monstro”.
Del Toro também merece aplausos por sua fidelidade ao romance de Mary Shelley. Esta é, sem dúvida, a adaptação mais completa e respeitosa do livro já feita para o cinema. O filme não apenas preserva a estrutura narrativa original – com diferentes perspectivas e narradores – mas também mergulha nas questões filosóficas e existenciais que tornam a obra tão relevante 200 anos depois. Temas como criação irresponsável, paternidade tóxica, rejeição social e, principalmente, perdão, são explorados com uma profundidade rara no cinema de terror contemporâneo.
Onde o filme tropeça
Agora, nem tudo são flores neste jardim gótico. Com 2 horas e 30 minutos de duração, o filme definitivamente exige paciência. Alguns críticos apontaram que certas mudanças narrativas parecem servir apenas para justificar esse tempo de tela inflado. A inclusão de cenas extensas da infância de Victor Frankenstein, por exemplo, embora funcionem tematicamente, acabam tornando o ritmo irregular em alguns momentos.
Oscar Isaac, apesar de tecnicamente competente, não entrega uma performance tão memorável quanto seu colega de elenco. Seu Victor Frankenstein oscila entre momentos de brilhantismo maníaco e interpretações que parecem não encontrar o tom certo. O personagem deveria ser uma figura complexa e atormentada, mas em certos momentos soa apenas histérico.
Outro ponto que dividiu opiniões foi a produção visual. Apesar da beleza geral, há momentos em que fica evidente que estamos vendo uma “produção Netflix”. Alguns efeitos especiais não têm o polimento que você esperaria de um filme desta magnitude, e isso pode tirar você da imersão em cenas cruciais. Como um crítico colocou, o filme custou mais que “Titanic”, mas em alguns momentos parece feito para TV.
O final também merece menção: após construir uma narrativa épica e deliberada por mais de duas horas, os últimos 20 minutos sentem-se inexplicavelmente apressados, como se o filme de repente lembrasse que precisa terminar.
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O Veredito Final Sobre o Filme
Então, vale a pena? Absolutamente. Mas com condições.
Se você é fã de del Toro, de terror gótico bem construído, ou se leu e amou o romance de Mary Shelley, este filme é imperdível. É uma obra de amor evidente, feita por alguém que dedicou décadas sonhando com esta adaptação. A performance de Jacob Elordi sozinha já vale a jornada.
Se você busca um filme de terror tradicional, cheio de sustos e ritmo frenético, pode se decepcionar. Este é um filme contemplativo, filosófico, que pede sua atenção e paciência. Não é um “filme de fundo” – você precisa estar presente e disposto a mergulhar em seu universo.
Minha recomendação? Reserve uma noite em que você tenha tempo e disposição mental para se entregar completamente à experiência. Apague as luzes, aumente o som (a trilha de Alexandre Desplat é magistral) e permita-se ser transportado para este mundo de neve, sangue e reflexões sobre o que nos torna humanos.
Frankenstein de del Toro pode não ser perfeito, mas é corajoso, ambicioso e genuinamente comovente. E no cenário atual do cinema, onde tantos filmes parecem criados por algoritmos, isso por si só já vale o seu tempo.
Nota: 8,5/10 – Uma experiência visual e emocional que, apesar de algumas falhas, confirma del Toro como um dos grandes contadores de histórias do cinema contemporâneo.
